para quem acompanha mais um trecho do romance que tenho escrito, espero que agrade... um grande beijo.
Os copos eram poucos, alguns se aproximaram tomaram o café assoprando e chacoalhando as mãos com pressa para passar o copo aos outros que esperavam.
Lilith colocou o café no copo e caminhou para escola, que ficava a uns dez metros da casa principal e Posto Indígena, que funcionava como casa para os vinte e cinco alunos e ainda abrigava a família do chefe de posto, o marido e a esposa, os únicos adultos do posto, mais dois filhos pequenos que não estavam em idade escolar, uma menina e um menino, meninas não poderia estudar. Lilith trabalhava com vinte e cinco alunos indígenas do sexo masculino, nenhuma menina, as mulheres eram proibidas de estudar.
Na soleira da porta da sala de aula o cheiro da terra batida e molhada se misturou com o cheiro de café, a sala um grande chapéu de palha de buriti, as paredes de varas de madeira retirada da mata que começava a uns dez passos, um quadro negro pendurado na parede e para completar com requinte e tornar o ambiente mais educacional, trinta carteiras escolares do tipo colegial, embora o chão fosse de terra batida, estava extremamente limpo, tão limpo que se podiam ver as marcas da vassoura estampada, formando um desenho riscado no chão, difícil de explicar, como se fosse uma cerâmica, em que o escultor alisasse delicadamente suas mãos, Lilith ficou observou cuidadosamente, e ficou com dó de pisar, por um instante hesitou encantada.
Devagar os alunos foram entrando, a maioria de cabeça baixa, passaram por Lilith e nem repararam no que ela observava, talvez por que o artista dificilmente atribui valor artístico a sua obra. Lilith saiu de seu marasmo, e caminhou para ocupar seu lugar de “professora da Escola Indígena”.
FIZ DA SOLIDÃO UMA EMERGÊNCIA... ÀS VEZES A LUA NEGRA, ÀS VEZES A MULHER DEMÔNIO, MAS NO FUNDO UM ANJO DE ASA QUEBRADA, ACORRENTADA AS CORRENTES DO AMOR, UMA SIMPLES MULHER...
terça-feira, 20 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
MAIS UM TRECHO DO MEU ROMANCE
LILITH ESCARLATE - CAPITULO II
Há dois meses Lilith aceitará o emprego de professora da Escola Indígena, um projeto piloto, para o ano de 1993, como outros tantos nos novos municípios formados no interior do Mato Grosso. Afinal ali sim, “é terra de índio”.
Ela chegará a pouco mais de um ano logo após o pleibiscito que tornará aquela terra de ninguém em cidade, não se parecia com nenhuma cidade que ela conhecerá antes, não havia ruas, havia trilhas cercadas por capim, havia poucas casas de alvenaria, havia barracos de lona preta, casas de pau-a-pique, prédios então! nem se fala, duas ou três casa de alvenaria e dois prédios públicos: Prefeitura e Câmara Municipal com nove vereadores lagartixas, tudo cercado de mata, e o pior ela nem sabia como havia chegado naquela clareira. Se tivesse que ir embora não saberia o caminho, literalmente ela aterrizará naquele chão.
As pessoas essas sim valiam à pena, simplesmente pessoas sem contaminação pelo progresso. As pessoas daquela localidade eram amigáveis e recebia a todos com igualdade, o jeito simples, e ao mesmo tempo acolhedor.
Nossa heroína chegará cheia de sonhos e planos de recomeço, acabar com o sofrimento que a perseguia desde a infância, ali ela estava com seu pai, tudo o que desejava desde a primeira infância, isso lhe dava forças para continuar, achará seu refugio, seu porto seguro, as coisas começaram a mudar, pelo menos não passava mais fome. Tinha um trabalho, não era mais uma no meio da multidão, era alguém.
- Bom dia! – expressou sem muita animação batendo a poeira das pernas e pés – E o café já tomou? Perguntou ao primeiro grupo de indígenas que encontrou, sentados em uma mesa próxima a cozinha.
- Não, ainda – respondeu um índio da aldeia Panará.
- Tá feito? Prosseguiu Lilith.
- Não?
Meio a contragosto ela acrescentou:
- Então vamos fazer né...
Partiu para a cozinha pensando no atraso da aula, mais um dia que seria mal aproveitado.
O indiozinho Panará se aproxima. E Lilith pergunta:
- Já varreram e molharam a escola.
- Já.
Lilith olhou para o relógio e pensou: - oito e quinze da manhã, já perderá quarenta e cinco minutos de aula – olhou impaciente para a água que não fervia, voltou-se para a porta e olhou com ternura para o índio Panará, que continuava parado na soleira da porta, pensou - será que ele tem ao menos doze anos? – e esboçou um leve sorriso, ela gostava dele, talvez porque a aldeia dele era a mais distante, três dias de barco voadeira descendo o rio, e mais uma hora de carro para chegar à escola, e pior não tinha nenhum parente, ele era único.
Nesse momento Lilith olhou nos olhos do indiozinho e viu... Viu o que ela muitas vezes somente sentiu... Solidão... Abandono... Vontade de ir embora daquele lugar... Sua cabeça doeu como se fosse atingida por um balde de água congelada... Eles se entreolharam por um instante... e ela não soube o que falar, apenas fez um movimento com os lábios como que dizendo: - eu sei... E concordou com um movimento de cabeça. Jogou o pó do café na água e sentiu um cheiro agradável, que a fez sorrir.
Há dois meses Lilith aceitará o emprego de professora da Escola Indígena, um projeto piloto, para o ano de 1993, como outros tantos nos novos municípios formados no interior do Mato Grosso. Afinal ali sim, “é terra de índio”.
Ela chegará a pouco mais de um ano logo após o pleibiscito que tornará aquela terra de ninguém em cidade, não se parecia com nenhuma cidade que ela conhecerá antes, não havia ruas, havia trilhas cercadas por capim, havia poucas casas de alvenaria, havia barracos de lona preta, casas de pau-a-pique, prédios então! nem se fala, duas ou três casa de alvenaria e dois prédios públicos: Prefeitura e Câmara Municipal com nove vereadores lagartixas, tudo cercado de mata, e o pior ela nem sabia como havia chegado naquela clareira. Se tivesse que ir embora não saberia o caminho, literalmente ela aterrizará naquele chão.
As pessoas essas sim valiam à pena, simplesmente pessoas sem contaminação pelo progresso. As pessoas daquela localidade eram amigáveis e recebia a todos com igualdade, o jeito simples, e ao mesmo tempo acolhedor.
Nossa heroína chegará cheia de sonhos e planos de recomeço, acabar com o sofrimento que a perseguia desde a infância, ali ela estava com seu pai, tudo o que desejava desde a primeira infância, isso lhe dava forças para continuar, achará seu refugio, seu porto seguro, as coisas começaram a mudar, pelo menos não passava mais fome. Tinha um trabalho, não era mais uma no meio da multidão, era alguém.
- Bom dia! – expressou sem muita animação batendo a poeira das pernas e pés – E o café já tomou? Perguntou ao primeiro grupo de indígenas que encontrou, sentados em uma mesa próxima a cozinha.
- Não, ainda – respondeu um índio da aldeia Panará.
- Tá feito? Prosseguiu Lilith.
- Não?
Meio a contragosto ela acrescentou:
- Então vamos fazer né...
Partiu para a cozinha pensando no atraso da aula, mais um dia que seria mal aproveitado.
O indiozinho Panará se aproxima. E Lilith pergunta:
- Já varreram e molharam a escola.
- Já.
Lilith olhou para o relógio e pensou: - oito e quinze da manhã, já perderá quarenta e cinco minutos de aula – olhou impaciente para a água que não fervia, voltou-se para a porta e olhou com ternura para o índio Panará, que continuava parado na soleira da porta, pensou - será que ele tem ao menos doze anos? – e esboçou um leve sorriso, ela gostava dele, talvez porque a aldeia dele era a mais distante, três dias de barco voadeira descendo o rio, e mais uma hora de carro para chegar à escola, e pior não tinha nenhum parente, ele era único.
Nesse momento Lilith olhou nos olhos do indiozinho e viu... Viu o que ela muitas vezes somente sentiu... Solidão... Abandono... Vontade de ir embora daquele lugar... Sua cabeça doeu como se fosse atingida por um balde de água congelada... Eles se entreolharam por um instante... e ela não soube o que falar, apenas fez um movimento com os lábios como que dizendo: - eu sei... E concordou com um movimento de cabeça. Jogou o pó do café na água e sentiu um cheiro agradável, que a fez sorrir.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
LEITURA E ESCRITA E A LEITURA DE MUNDO
Leodineia Gisete Bocato*
... Aprender a ler significa também aprender a ler o mundo, dar sentido a ele e a nós próprios... (Martins: 2003, p.34)...
Todos os dias nos deparamos com várias situações que nos faz refletir sobre o que é a LEITURA, vários estudos são feitos e os resultados são lentos, mas, progridem.
Faz-se necessário, antes de argumentarmos a respeito da leitura dos alunos que freqüentam as Escolas Estaduais do Mato Grosso[1] – principalmente do interior – definirmos alguns conceitos sobre o que é LEITURA e como se constrói o ato de ler do aluno.
Retomam-se conceitos como de Paulo Freire, “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”.(2003: p10). Ou ainda conforme Maria Helena Martins[2] “... O leitor pré-existe a descoberta do significado das palavras escritas” (2003: p 11), nos dois autores verifica-se que o individuo produz leitura muito antes de ter contato com palavras escritas propriamente ditas.
Pensando-se neste conceito tentaremos neste artigo lançar um olhar sobre a leitura e a dificuldade que os alunos apresentam na interpretação de textos. A interpretação tem sido um dos maiores desafios dos professores de Língua Portuguesa, pois é comum escutarmos nas salas de professores e outras dependências da escola comentários como: “meu aluno não consegue responder as questões do texto”, “O aluno não consegue passar para o papel sentidos do texto e ou que é pedido” ou ainda: “ao responder as questões o aluno saiu totalmente do ‘rumo’ do que foi pedido”. Esses são alguns dos comentários comuns entre educadores de diversas disciplinas, que por sua vez cobram explicações do professor de Língua Portuguesa (L P), neste caso acham que o professor desta disciplina (L P) conseguirá resolver todos os problemas referentes à leitura, e pior, que tem obrigação de resolvê-los.
Se o aluno vai mal na leitura, escrita e interpretação acredita-se que a culpa é do professor de L P.
Retomando ao conceito de leitura, pode-se dizer que é uma responsabilidade de todos. O aluno quando passa a freqüentar a escola traz consigo um conhecimento o qual aqui chamaremos de ‘leitura de mundo’, conforme Paulo Freire, leitura esta que é por muitas vezes deixada do lado de fora da escola e o ato de ler se torna doloroso e taxativo, nos deparamos com ‘famosas’ frases feitas como “o aluno não sabe de nada”.
Fica excluído o prazer construindo-se estereotipo, o aluno conforme vai aprimorando sua escolarização menos sente prazer em ler, o aluno não consegue perceber a leitura como uma atividade significativa em sua vida e por isso não se interessa por ela, o que causa uma frustração tanto no aluno quanto no professor que na maioria das vezes (sem querer generalizar) acaba abrindo mão das atividades de leitura em sala de aula e fora desta.
Faz-se necessário uma abertura para uma reflexão de como e quando o aluno produz leitura, ou aprende a ler, segundo Coracini[3] (1995: p.19)
“Aprender a ler equivale a descobrir o significado das palavras do texto, a pronunciar corretamente, a localizar os momentos (ou idéias) principais dos textos ali depositados de forma definitiva pela vontade consciente do autor”.
Não pretendemos aqui entrar em níveis e estágios de leitura, mas pode-se dizer que a principal função da escrita é promover uma (inter) relação de sentidos internos (textos) e externos (leitor). A produção de leitura esta relacionada indiretamente com a produção de escrita, e esta ocorre quando o leitor se torna autor.
Após pesquisa recente na Escola Estadual “Antônio Gomes Primo”, com alunos da 7ª série do período matutino, verifica-se o que realmente ocorre no ambiente escolar é o desencontro entre a leitura proposta e a leitura de gosto do educando.
No levantamento de dados em nenhum momento foi mencionado pelo alunado gosto ou interesse pelos textos trabalhados na escola, o interesse do aluno esta voltado para texto que circulam fora da escola como: revistas televisivas, gibis e outros do tipo e gênero e na maioria das vezes (não generalizando) o professor não consegue se desvincular do aparato didático nas aulas de leitura e produção de escrita volta-se então a ‘velha’ questão: o lugar em que os alunos deveriam compreender, praticar, (re) visitar e revisar torna-se local de conflito e obrigatoriedade, por um lado o educador não vê desenvolvimento do aluno e por outro o educando não quer (ou não sabe) atender as exigências de leitura proposta pela escola.
Pensando nesta temática somos levados a ver, (re) ver a posição dos PCNs, que para “socorrer” o educador apresenta propostas de trabalho com textos de gêneros variados, mas ainda assim há uma resistência por parte do educador em por em pratica esta proposta em sala de aula, no interior do Estado (como disse no início deste artigo) o educador tem como principal reclamação a falta de material para o desenvolvimento da leitura, a maioria alega a falta de biblioteca, relacionando a deficiência a uma macro – estrutura, se esquecendo que o que os alunos gostam de ler textos que circulam em meio ao seu grupo.
Um dos caminhos que pode representar uma mudança no modo de se encarar a leitura e escrita, são os Projetos Didáticos e Temáticos, que não é uma solução “mais fácil”, mas sim requer o envolvimento de todos os professores e principalmente da comunidade escolar, que necessita se mobilizar para resolver o problema e não apenas deixar na responsabilidade para professor de LP, e jamais podemos esquecer que todas as demais disciplinas necessitam da leitura, escrita e interpretação tanto quanto ou mais que Língua Portuguesa.
Deixo para um próximo artigo esse tema sobre Projetos Didáticos e Temáticos, lembrando que o ato de ler existe independente da Escola, basta lembrarmos que o mundo existe e nós existimos nele, vivenciamos experiências que apesar de parecidas são únicas para cada individuo, o aluno não vem para a escola como um “saco vazio”, mas carregado de experiências, vivências e novidades, basta abrirmos a mente e principalmente o coração...
BIBLIOGRAFIA
CORACINI, Maria José R. O. “Leitura Decodificação, processos discursivos...” In O jogo do discursivo na aula de Leitura. Língua Materna e Língua Estrangeira. Campinas SP. Pontes, 1995:13-20.
MARTINS, Maria Helena: O Que é Leitura, coleção Primeiros Passos: São Paulo. 2003.
*Acadêmica do Curso de Letras da UNEMAT – Projeto Parceladas Núcleo de apoio Pedagógico de Confresa - MT
[1] Este artigo baseia-se em pesquisa realizada no Município de São José do Xingu, na Escola Estadual “Antonio Gomes Primo”, pesquisa esta intitulada “Problemas de leitura e escrita dos alunos da 7ª série da Escola Estadual “Antônio Gomes Primo”.
[2] MARTINS, Maria Helena: O Que é Leitura, coleção Primeiros Passos: São Paulo.2003.
[3] CORACINI, Maria José R. O. “Leitura Decodificação, processos discursivos...” In O jogo do discursivo na aula de Leitura. Língua Materna e Língua Estrangeira. Campinas SP. Pontes, 1995:13-20.
Leodineia Gisete Bocato*
... Aprender a ler significa também aprender a ler o mundo, dar sentido a ele e a nós próprios... (Martins: 2003, p.34)...
Todos os dias nos deparamos com várias situações que nos faz refletir sobre o que é a LEITURA, vários estudos são feitos e os resultados são lentos, mas, progridem.
Faz-se necessário, antes de argumentarmos a respeito da leitura dos alunos que freqüentam as Escolas Estaduais do Mato Grosso[1] – principalmente do interior – definirmos alguns conceitos sobre o que é LEITURA e como se constrói o ato de ler do aluno.
Retomam-se conceitos como de Paulo Freire, “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”.(2003: p10). Ou ainda conforme Maria Helena Martins[2] “... O leitor pré-existe a descoberta do significado das palavras escritas” (2003: p 11), nos dois autores verifica-se que o individuo produz leitura muito antes de ter contato com palavras escritas propriamente ditas.
Pensando-se neste conceito tentaremos neste artigo lançar um olhar sobre a leitura e a dificuldade que os alunos apresentam na interpretação de textos. A interpretação tem sido um dos maiores desafios dos professores de Língua Portuguesa, pois é comum escutarmos nas salas de professores e outras dependências da escola comentários como: “meu aluno não consegue responder as questões do texto”, “O aluno não consegue passar para o papel sentidos do texto e ou que é pedido” ou ainda: “ao responder as questões o aluno saiu totalmente do ‘rumo’ do que foi pedido”. Esses são alguns dos comentários comuns entre educadores de diversas disciplinas, que por sua vez cobram explicações do professor de Língua Portuguesa (L P), neste caso acham que o professor desta disciplina (L P) conseguirá resolver todos os problemas referentes à leitura, e pior, que tem obrigação de resolvê-los.
Se o aluno vai mal na leitura, escrita e interpretação acredita-se que a culpa é do professor de L P.
Retomando ao conceito de leitura, pode-se dizer que é uma responsabilidade de todos. O aluno quando passa a freqüentar a escola traz consigo um conhecimento o qual aqui chamaremos de ‘leitura de mundo’, conforme Paulo Freire, leitura esta que é por muitas vezes deixada do lado de fora da escola e o ato de ler se torna doloroso e taxativo, nos deparamos com ‘famosas’ frases feitas como “o aluno não sabe de nada”.
Fica excluído o prazer construindo-se estereotipo, o aluno conforme vai aprimorando sua escolarização menos sente prazer em ler, o aluno não consegue perceber a leitura como uma atividade significativa em sua vida e por isso não se interessa por ela, o que causa uma frustração tanto no aluno quanto no professor que na maioria das vezes (sem querer generalizar) acaba abrindo mão das atividades de leitura em sala de aula e fora desta.
Faz-se necessário uma abertura para uma reflexão de como e quando o aluno produz leitura, ou aprende a ler, segundo Coracini[3] (1995: p.19)
“Aprender a ler equivale a descobrir o significado das palavras do texto, a pronunciar corretamente, a localizar os momentos (ou idéias) principais dos textos ali depositados de forma definitiva pela vontade consciente do autor”.
Não pretendemos aqui entrar em níveis e estágios de leitura, mas pode-se dizer que a principal função da escrita é promover uma (inter) relação de sentidos internos (textos) e externos (leitor). A produção de leitura esta relacionada indiretamente com a produção de escrita, e esta ocorre quando o leitor se torna autor.
Após pesquisa recente na Escola Estadual “Antônio Gomes Primo”, com alunos da 7ª série do período matutino, verifica-se o que realmente ocorre no ambiente escolar é o desencontro entre a leitura proposta e a leitura de gosto do educando.
No levantamento de dados em nenhum momento foi mencionado pelo alunado gosto ou interesse pelos textos trabalhados na escola, o interesse do aluno esta voltado para texto que circulam fora da escola como: revistas televisivas, gibis e outros do tipo e gênero e na maioria das vezes (não generalizando) o professor não consegue se desvincular do aparato didático nas aulas de leitura e produção de escrita volta-se então a ‘velha’ questão: o lugar em que os alunos deveriam compreender, praticar, (re) visitar e revisar torna-se local de conflito e obrigatoriedade, por um lado o educador não vê desenvolvimento do aluno e por outro o educando não quer (ou não sabe) atender as exigências de leitura proposta pela escola.
Pensando nesta temática somos levados a ver, (re) ver a posição dos PCNs, que para “socorrer” o educador apresenta propostas de trabalho com textos de gêneros variados, mas ainda assim há uma resistência por parte do educador em por em pratica esta proposta em sala de aula, no interior do Estado (como disse no início deste artigo) o educador tem como principal reclamação a falta de material para o desenvolvimento da leitura, a maioria alega a falta de biblioteca, relacionando a deficiência a uma macro – estrutura, se esquecendo que o que os alunos gostam de ler textos que circulam em meio ao seu grupo.
Um dos caminhos que pode representar uma mudança no modo de se encarar a leitura e escrita, são os Projetos Didáticos e Temáticos, que não é uma solução “mais fácil”, mas sim requer o envolvimento de todos os professores e principalmente da comunidade escolar, que necessita se mobilizar para resolver o problema e não apenas deixar na responsabilidade para professor de LP, e jamais podemos esquecer que todas as demais disciplinas necessitam da leitura, escrita e interpretação tanto quanto ou mais que Língua Portuguesa.
Deixo para um próximo artigo esse tema sobre Projetos Didáticos e Temáticos, lembrando que o ato de ler existe independente da Escola, basta lembrarmos que o mundo existe e nós existimos nele, vivenciamos experiências que apesar de parecidas são únicas para cada individuo, o aluno não vem para a escola como um “saco vazio”, mas carregado de experiências, vivências e novidades, basta abrirmos a mente e principalmente o coração...
BIBLIOGRAFIA
CORACINI, Maria José R. O. “Leitura Decodificação, processos discursivos...” In O jogo do discursivo na aula de Leitura. Língua Materna e Língua Estrangeira. Campinas SP. Pontes, 1995:13-20.
MARTINS, Maria Helena: O Que é Leitura, coleção Primeiros Passos: São Paulo. 2003.
*Acadêmica do Curso de Letras da UNEMAT – Projeto Parceladas Núcleo de apoio Pedagógico de Confresa - MT
[1] Este artigo baseia-se em pesquisa realizada no Município de São José do Xingu, na Escola Estadual “Antonio Gomes Primo”, pesquisa esta intitulada “Problemas de leitura e escrita dos alunos da 7ª série da Escola Estadual “Antônio Gomes Primo”.
[2] MARTINS, Maria Helena: O Que é Leitura, coleção Primeiros Passos: São Paulo.2003.
[3] CORACINI, Maria José R. O. “Leitura Decodificação, processos discursivos...” In O jogo do discursivo na aula de Leitura. Língua Materna e Língua Estrangeira. Campinas SP. Pontes, 1995:13-20.
O ELEMENTO HISTORICO SOCIAL COMO PERSONAGEM NA OBRA O MULATO DE ALUIZIO DE AZEVEDO
LEODINEIA GISETE BOCATO *
Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo, nasceu em 1857, na capital São Luiz do Maranhão, filho do vice-cônsul português em São Luiz, recebe a ajuda do irmão Artur Azevedo, muda-se para o Rio de Janeiro onde trabalha em vários jornais como caricaturista, retratando a política e o humor em sua época. Em 1881 lança sua primeira obra de relevo para o Realismo/Naturalismo: O Mulato, denunciando o preconceito racial das famílias ricas da província e do Estado do Maranhão. [1]
Azevedo apresenta uma forte influência de Zola e Eça de Queirós, durante 13 anos Azevedo vive exclusivamente de seu trabalho com escritor obtendo uma grande produção de romances, contos, operetas, revistas teatrais todos baseados no Realismo.[2]
Para BOSI Azevedo atinge o Naturalismo tanto no nível ideológico como no nível estético:
(...) no nível ideológico,..., na esfera da explicação do real, a certeza subjacente de um fato irreversível, cristaliza-se no determinismo (da raça, do meio, do temperamento...).
No nível estético, em que o próprio ato de escrever é o reconhecimento implícito de uma faixa de liberdade (...)[3]
Diante do exposto buscamos uma analise do Elemento Histórico – Social na obra O Mulato de Aluísio Azevedo, o qual apresenta fortes características de personagem na obra, pois a sociedade e seu tom conservadorista dão o ritmo da trama de Azevedo.
Antes de aprofundarmos, se faz necessária uma explicação a respeito do Realismo/Naturalismo. O Realismo assume tom de naturalismo, quando as personagens e o enredo são submetidos ao destino seguindo rigorosamente as leis naturais impostas pela época, o Naturalismo toma enfoque de tese e denúncia, no caso de O Mulato, denúncia de uma sociedade conservadora e corrompida pelo preconceito das famílias maranhense e a igreja na imagem do padre/bispo Dom Diogo, que cabula a trama manipulando-a do início, com a tragédia da morte do pai de Raimundo (O Mulato), provocado pelo padre que mantêm um relacionamento amoroso com Quitéria madrasta de Raimundo, este filho de uma escrava que se vê louca pelos maus tratos de dona Quitéria, até a morte do próprio Mulato Raimundo em que o padre/bispo, planeja com requintes de crueldade, para esconder seus segredos de mocidade, preservando assim uma suposta ordem social.
Azevedo apresenta logo no inicio do livro uma descrição da capital maranhense São Luiz, carregada de ironia: “Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luiz do Maranhão parecia entorpecida de calor.” (2005:15)[4], desde a apresentação da cidade de São Luiz o autor tenta apresenta-la com uma coisa insignificante, melhor dizer quase que morta, mas que pulsa uma sociedade mesquinha cheia de preconceitos e feridas que maculam as pessoas de status sociais na trama, como exemplo temos o tio de Raimundo e sua família composta por sua filha Ana Rosa, moça inocente aparentemente que se apaixona pelo meio primo Raimundo, e sua sogra D. Mariana mulher carregada de preconceito que despreza Raimundo por sua condição de Filho de escrava com português e que o apelida de Mulato, dona Mariana é a figuração da sociedade Maranhense, pois seus pensamentos e seus preconceitos são compartilhados e com a maioria da população daquela sociedade.
Manuel Pescada próspero português se estabelece em São Luiz trabalhando no comercio se torna comerciante próspero e amante de Camões, também compartilha dos preconceitos, e abomina a união de Ana Rosa.
Antonio Candido[5] nos explica acerca do Elemento Histórico Social:
“O elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro ao lado dos psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros. Neste nível de análise, em que a estrutura constitui o ponto de referencia, as divisões pouco importam, pois tudo se transforma, para o critico, em fermento orgânico de que resultou a diversidade coesa do todo.” (2002:07)
Podemos dizer então, que o elemento histórico social deve ser entendido como a personagem principal, pois devido a historia de colonização brasileira e a maneira com que foram tratados os escravos no Brasil até abolição da escravatura resulta no enredo de O Mulato.
Azevedo nada mais faz, do que alertar a podridão que esta inserida na sociedade de sua época, mostra ainda que apesar de errado o sistema nada oferece para mudar a situação latente.
O exemplo dessa situação esta claro quando na morte d’Mulato, Ana Rosa se casa com Luiz Dias pessoa que ela abominava como homem e apesar do grande amor que sentia por Raimundo se torna a mais dedicada das esposas honrando e amando seu marido[6]:
“O Dias tomara seu chapéu no corredor, e, ao embarcar no carro que esperava pelos dois lá embaixo, Ana Rosa levantara-lhe carinhosamente a gola da casaca.
_ Agasalha bem o pescoço, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto à noite, queridinho!”(2005:247)
Nestas ultimas palavras do livro, vemos que o elemento histórico social esta presente no esquecimento da personagem Raimundo, que representava uma vergonha para a raça branca, triunfa ao fim do livro a sociedade e personagem principal (elemento histórico social) sai vitoriosa, por um outro lado o Naturalismo demonstra bem a incapacidade de uma mudança na situação, pois a realidade perde o tom romântico do final, felizes para sempre apesar das dificuldades, e ganha a cor cinza da realidade.
BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO, Aluisio “O Mulato”. Série Bom Livro, 3ª ed. São Paulo 2005
BOSI,Alfredo “Historia Concisa da Literatura Brasileira – in V O Realismo – um novo ideário – 41ª
edição, Cultrix. São Paulo.2003.
CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade Estudo de Teoria e Historia Literária. 8ª ed. TAO São Paulo
, 2002.
* ACADEMICA DO CURSO DE LETRAS DO PROJETO PARCELADAS DA UNEMAT – UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO.
[1] BOSI, Alfredo “Historia Concisa da Literatura Brasileira”, in – Aluízio Azevedo e os principais naturalistas – 14ª edição, Cultrix - São Paulo. 2003
[2] Idem ao 1.
[3] BOSI,Alfredo “Historia Concisa da Literatura Brasileira – in V O Realismo – um novo ideário – 41ª edição, Cultrix. São Paulo.2003.
[4] AZEVEDO, Aluisio “O Mulato”. Série Bom Livro, 3ª ed. São Paulo 2005
[5] CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade Estudo de Teoria e Historia Literária. 8ª ed. TAO São Paulo , 2002.
[6] Idem a 4
LEODINEIA GISETE BOCATO *
Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo, nasceu em 1857, na capital São Luiz do Maranhão, filho do vice-cônsul português em São Luiz, recebe a ajuda do irmão Artur Azevedo, muda-se para o Rio de Janeiro onde trabalha em vários jornais como caricaturista, retratando a política e o humor em sua época. Em 1881 lança sua primeira obra de relevo para o Realismo/Naturalismo: O Mulato, denunciando o preconceito racial das famílias ricas da província e do Estado do Maranhão. [1]
Azevedo apresenta uma forte influência de Zola e Eça de Queirós, durante 13 anos Azevedo vive exclusivamente de seu trabalho com escritor obtendo uma grande produção de romances, contos, operetas, revistas teatrais todos baseados no Realismo.[2]
Para BOSI Azevedo atinge o Naturalismo tanto no nível ideológico como no nível estético:
(...) no nível ideológico,..., na esfera da explicação do real, a certeza subjacente de um fato irreversível, cristaliza-se no determinismo (da raça, do meio, do temperamento...).
No nível estético, em que o próprio ato de escrever é o reconhecimento implícito de uma faixa de liberdade (...)[3]
Diante do exposto buscamos uma analise do Elemento Histórico – Social na obra O Mulato de Aluísio Azevedo, o qual apresenta fortes características de personagem na obra, pois a sociedade e seu tom conservadorista dão o ritmo da trama de Azevedo.
Antes de aprofundarmos, se faz necessária uma explicação a respeito do Realismo/Naturalismo. O Realismo assume tom de naturalismo, quando as personagens e o enredo são submetidos ao destino seguindo rigorosamente as leis naturais impostas pela época, o Naturalismo toma enfoque de tese e denúncia, no caso de O Mulato, denúncia de uma sociedade conservadora e corrompida pelo preconceito das famílias maranhense e a igreja na imagem do padre/bispo Dom Diogo, que cabula a trama manipulando-a do início, com a tragédia da morte do pai de Raimundo (O Mulato), provocado pelo padre que mantêm um relacionamento amoroso com Quitéria madrasta de Raimundo, este filho de uma escrava que se vê louca pelos maus tratos de dona Quitéria, até a morte do próprio Mulato Raimundo em que o padre/bispo, planeja com requintes de crueldade, para esconder seus segredos de mocidade, preservando assim uma suposta ordem social.
Azevedo apresenta logo no inicio do livro uma descrição da capital maranhense São Luiz, carregada de ironia: “Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luiz do Maranhão parecia entorpecida de calor.” (2005:15)[4], desde a apresentação da cidade de São Luiz o autor tenta apresenta-la com uma coisa insignificante, melhor dizer quase que morta, mas que pulsa uma sociedade mesquinha cheia de preconceitos e feridas que maculam as pessoas de status sociais na trama, como exemplo temos o tio de Raimundo e sua família composta por sua filha Ana Rosa, moça inocente aparentemente que se apaixona pelo meio primo Raimundo, e sua sogra D. Mariana mulher carregada de preconceito que despreza Raimundo por sua condição de Filho de escrava com português e que o apelida de Mulato, dona Mariana é a figuração da sociedade Maranhense, pois seus pensamentos e seus preconceitos são compartilhados e com a maioria da população daquela sociedade.
Manuel Pescada próspero português se estabelece em São Luiz trabalhando no comercio se torna comerciante próspero e amante de Camões, também compartilha dos preconceitos, e abomina a união de Ana Rosa.
Antonio Candido[5] nos explica acerca do Elemento Histórico Social:
“O elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro ao lado dos psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros. Neste nível de análise, em que a estrutura constitui o ponto de referencia, as divisões pouco importam, pois tudo se transforma, para o critico, em fermento orgânico de que resultou a diversidade coesa do todo.” (2002:07)
Podemos dizer então, que o elemento histórico social deve ser entendido como a personagem principal, pois devido a historia de colonização brasileira e a maneira com que foram tratados os escravos no Brasil até abolição da escravatura resulta no enredo de O Mulato.
Azevedo nada mais faz, do que alertar a podridão que esta inserida na sociedade de sua época, mostra ainda que apesar de errado o sistema nada oferece para mudar a situação latente.
O exemplo dessa situação esta claro quando na morte d’Mulato, Ana Rosa se casa com Luiz Dias pessoa que ela abominava como homem e apesar do grande amor que sentia por Raimundo se torna a mais dedicada das esposas honrando e amando seu marido[6]:
“O Dias tomara seu chapéu no corredor, e, ao embarcar no carro que esperava pelos dois lá embaixo, Ana Rosa levantara-lhe carinhosamente a gola da casaca.
_ Agasalha bem o pescoço, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto à noite, queridinho!”(2005:247)
Nestas ultimas palavras do livro, vemos que o elemento histórico social esta presente no esquecimento da personagem Raimundo, que representava uma vergonha para a raça branca, triunfa ao fim do livro a sociedade e personagem principal (elemento histórico social) sai vitoriosa, por um outro lado o Naturalismo demonstra bem a incapacidade de uma mudança na situação, pois a realidade perde o tom romântico do final, felizes para sempre apesar das dificuldades, e ganha a cor cinza da realidade.
BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO, Aluisio “O Mulato”. Série Bom Livro, 3ª ed. São Paulo 2005
BOSI,Alfredo “Historia Concisa da Literatura Brasileira – in V O Realismo – um novo ideário – 41ª
edição, Cultrix. São Paulo.2003.
CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade Estudo de Teoria e Historia Literária. 8ª ed. TAO São Paulo
, 2002.
* ACADEMICA DO CURSO DE LETRAS DO PROJETO PARCELADAS DA UNEMAT – UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO.
[1] BOSI, Alfredo “Historia Concisa da Literatura Brasileira”, in – Aluízio Azevedo e os principais naturalistas – 14ª edição, Cultrix - São Paulo. 2003
[2] Idem ao 1.
[3] BOSI,Alfredo “Historia Concisa da Literatura Brasileira – in V O Realismo – um novo ideário – 41ª edição, Cultrix. São Paulo.2003.
[4] AZEVEDO, Aluisio “O Mulato”. Série Bom Livro, 3ª ed. São Paulo 2005
[5] CANDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade Estudo de Teoria e Historia Literária. 8ª ed. TAO São Paulo , 2002.
[6] Idem a 4
sexta-feira, 2 de julho de 2010
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